Segunda parte
O Templo das Sombras
Capítulo 9
"...e então Saban viu quem estava sentada do outro lado da fogueira mais distante do salão e seu mundo mudou.
Foi um momento em que seu coração parou de bater, em que o mundo e todos os seus ruídos - a chuva na palha, as vozes ásperas, os estalos da madeira queimando, as notas aéreas da flauta e a pulsação dos tambores - desapareceram. Tudo ficou suspenso naquele momento, como se não restasse nada além dele próprio e da garota de manto branco sentada numa plataforma de madeira na extremidade mais distante do salão.
A princípio, quando a vislumbrou através da fumaça em redemoinho, Saban achou que ela não poderia ser humana, de tão limpa. Seu manto era branco e enfeitado com losangos brilhantes, e o cabelo caía numa cascata de ouro luminoso para emoldurar um rosto que era o mais pálido e o mais lindo que ele já vira. Sentiu um jorro de culpa com relação a Derrewyn, um jorro que foi varrido para longe enquanto olhava para a garota. Olhou e olhou, imóvel, como se tivesse sido acertado por uma flecha semelhante a que havia tremulado ao crepúsculo para matar seu pai. Não comeu, recusou a bebida que Camaban lhe ofereceu, simplesmente ficou olhando através da fumaça para a garota etérea que parecia pairar acima da festa ruidosa. Ela não comia, não bebia, não falava, só ficava ali, entronizada como uma deusa.
A voz áspera de Camaban soou no ouvido de Saban:
- O nome dela é Aurenna, e é uma deusa. É a noiva de Erek, e esta festa é para lhe dar as boas vindas ao povoado. Não é linda? Quando falar com ela, você deve se ajoelhar. Mas se tocá-la, irmão, você morrerá. Se ao menos sonhar em tocá-la, morrerá.
- Ela é a noiva do sol?
- E vai queimar em menos de três luas. É assim que as noivas do sol se casam. Pulam numa fogueira na beira do mar. Banha chiando e ossos estalando. Chamas e gritos. Ela morre. Esse é o propósito dela. Por isso ela vive, para morrer. Então não a encare como um bezerro idiota, porque não pode tê-la. Encontre uma escrava para fornicar porque, se tocar em Aurenna, você morre.
Mas Saban não conseguia afastar os olhos da noiva do sol. Valeria a pena morrer, pensou imprudente, só para tocar aquela garota dourada. Achou que ela teria 14 ou 15 verões, a mesma idade dele, uma noiva perfeita, e de repente Saban foi atacado por um enorme sentimento de perda. Primeiro Derrewyn, e agora esta garota. Será que Miyac, a filha de Haragg, havia presidido uma festa como essa? Será que era tão linda assim? E será que algum rapaz havia olhado para ela com desejo antes que ela fosse para as chamas na beira do mar?"
"[...]
- Já começaram a empilhar a fogueira - disse Haragg, enojado.
- Kereval me contou que este ano vão fazer a fogueira maior - disse Camaban. - Querem garantir que esta garota morra depressa. - O vento levantava seu cabelo e chacoalhava os pequenos ossos amarrados às franjas da túnica. Ele olhou para Saban. - A garota é despida dentro do círculo, depois espera até que o sol toque o mar, quando deve andar pela avenida de pedras e saltar nas chamas. Eu assisti no ano passado - continuou -, e a garota se amedrontou. Tentou pular direto através do fogo. - Ele riu da lembrança. - Que morte ela teve!
- Então elas não vão por livre vontade? - perguntou Saban.
- Algumas vão - respondeu Haragg. - Minha filha foi. - Agora o grandalhão estava chorando. - Ela caminhou para o marido como uma noiva deve caminhar e sorria a cada passo do caminho.
Saban estremeceu. Olhou para a borda do penhasco e tentou imaginar a filha de Haragg pisando na fogueira acesa. Ouviu seu grito, viu seu cabelo comprido flamejar mais luminoso que o sol com quem iria se casar e de repente sentiu vontade de chorar por Aurenna. Não podia afastar o rosto dela dos pensamentos."
Bernard Cornwell